terça-feira, 19 de agosto de 2014

‘Usam até pedaços de vasos sanitários para nos agredir’, relata agente de unidade para menores infratores do Rio

Armas artesanais apreendidas pelos agentes dentro de unidades para menores infratores
Armas artesanais apreendidas pelos agentes dentro de unidades para menores infratores Foto: Reprodução
“Os adolescentes partem para cima da gente mesmo. São tapas, chutes e socos. Usam até pedaços dos vasos sanitários para nos agredir. Isso sem falar nos xingamentos. Vivemos sempre em alerta, numa tensão permanente’’. O relato é de X., um agente socioeducativo que trabalha há 16 anos com menores infratores no Rio. A violência dos adolescentes contra os funcionários do Degase, tema do terceiro dia da série “Novo Degase, velhas práticas”, também vem aumentando. Só nos sete primeiros meses de 2014 já foram registrados cinco casos pelo departamento, apenas dois a menos do que os sete ocorridos em todo o ano passado.

- Temos problemas com esses garotos semanalmente. Recentemente, um deles veio com um pedaço de madeira me bater. A sorte foi que um colega chegou. Eles estão acada vez mais agressivos — lamenta X.

Armas artesanais apreendidas pelos agentes dentro de unidades para menores infratores
Armas artesanais apreendidas pelos agentes dentro de unidades para menores infratores Foto: Reprodução


Os agentes relatam que o aumento da violência dos jovens tem sido percebido por eles nos últimos anos, e seria resultado do uso cada vez mais frequente da mão-de-obra de menores principalmente pelo tráfico de drogas.
— Eles estão mais inseridos no crime - opina o presidente do Sind-Degase, Marcos Aurélio Rodrigues.

Arma artesanal usadas pelos adolescentes
arma artesanal usada pelos adolescentes

Y, outro agente que também não quer se identificar, conta que os funcionários possuem regras básicas para protegerem sua integridade física. Abrir um alojamento ou andar sozinho, por exemplo, nunca. É preciso sempre ter um companheiro dando cobertura.
- A lógica é a mesma do sistema prisional, mas não temos aparato para conter os garotos. Só contamos com o spray de pimenta, e nem todos podem usar. O pior é que muitas vezes encontramos grupos com armamentos manuais fabricados lá dentro. Nossa rotina é muito estressante - relata.

Agente fica ferido durante tentativa de fuga em unidade para menores da Baixada Fluminense
Agente fica ferido durante tentativa de fuga em unidade para menores da Baixada Fluminense Foto: Reprodução
Agente socioeducativo, Y., que também prefere o anonimato, ainda tenta se recuperar do trauma sofrido há 14 anos, quando ficou refém de adolescentes do Educandário Santo Expedito durante uma rebelião. Foi esfaqueado e torturado:
- Nosso trabalho é muito delicado. Temos que ser amigos, psicólogos, padres, médicos, professores. Mas há os momentos nos quais precisamos ser repressores. Nunca tivemos tanta necessidade de intervir nos conflitos entre esses jovens como atualmente. Nessas situações, os excessos acontecem. É uma relação de amor e ódio.


Arma artesanal usada pelos adolescentes para agredir agentes do Degase
Arma artesanal usada pelos adolescentes para agredir agentes do Degase Foto: Reprodução


Os agentes concordam que os menores infratores estão mais violentos. Para eles, o uso mais frequentes do jovem pelo tráfico
Para o advogado Carlos Nicodemos, membro do Conselho Nacional dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes, a violência dentro das unidades do Degase acabam transformando-se em algo cíclico.
- É o agente que agride o adolescente, os jovens que se matam, ou batem nos funcionários. Tudo resultado de uma política socioeducativa caótica - analisa.


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